Em defesa de Boris Casoy

•05/01/2010 • 7 Comentários

Depois de passar os últimos dois dias lendo quilos e quilômetros de mensagens detonando Boris Casoy, resolvi escrever, principalmente após ter lido o texto do blogue Conexão  Brasília Maranhão, que humilha o jornalista e propõe que ele peça demissão.

Aliás, fá-lo da maneira mais sensacionalista possível, com intuito claro de atrair leitores da maneira mais apelativa que existe, através do título do post: “Boris Casoy pede demissão da Band por ofender garis”. Trata-se de uma afirmação que não condiz com a verdade e que só serve para fazer os internautas clicarem no link para o blogue de Rogério Tomaz Jr..

Boris errou, assim como o responsável pelo vazamento de áudio no jornal. Todos erram. Todos fazem comentários maldosos. Sejam eles preconceituosos ou de classe; atacando os gordos ou os feios; os gays. Todos pelas costas. 99% das pessoas fazem isso.

Até os médicos fazem piadas de humor negro, frente a pacientes em estado grave, e há até explicação pela Psicologia: está provado que isso tem até certo efeito, aliviando o peso de ter de lidar com dezenas de doentes diariamente.

Boris pediu desculpas, viu o comentário infeliz que tinha feito. Em nenhum momento tentou justificar-se. Pra mim, esse assunto já deveria estar encerrado. O que não pode acontecer é alguém escrever um texto num blogue, com título sensacionalista, fazendo pressão pela demissão de alguém que tem família, e que não cometeu crime nenhum.

É essa mania de ficar cuidando da vida dos outros. Se Boris errou, a vida vai fazê-lo aprender, sem precisar de ninguém colocando o dedo na cara dele.

Puta azar, Boris! Falar no ar o que todos falam no cotidiano. Agora aguenta milhares de filhos da puta hipócritas te criticando.

Diálogo cretino de Natal

•25/12/2009 • Deixe um comentário

Uma moça conversando com uma menina de cinco anos:

- Você acredita no Saci?

- Não.

- Em Papai Noel você acredita?

- Acredito…

- Então: o Saci é igualzinho, tem um chapéu vermelho igual, só não tem uma perna…

(Mal dá pra saber quem é a moça e quem é a criança, pelo diálogo. Nota zero de psicologia infantil.)

Aproveitando o embalo, fica aqui meu vídeo preferido de Natal.

Foda-se

•15/10/2009 • 1 Comentário

Satisfez-se por ter finalmente conseguido clicar o “Foda-se“, aquele mesmo botão que nos permite apertar a mão de outrem, sem a preocupação em saber se imediatamente antes ele havia ou não coçado a bunda.

Resolvera  escrever um texto sobre procrastinação, e concluiu sabiamente que o melhor a fazer seria deixá-lo para semana que vem. Contribuiu para isso o fato de ter começado este post faltando trinta minutos para as oito horas de quinta-feira.

Regozijou-se por ter entendido o motivo alguns dos motivos de escritores long time ago já adotarem pseudônimos: eles podem libertar-se de seus laços sociais, assumir preconceitos e derramar palavrões, sem que ninguém venha julgá-los. E não é que tenham medo de sofrer censura. Não querem, realmente, a apurrinhação por perto. Podem, ainda, contar histórias reais, transformando-as em não tão reais, de acordo com o que possa virar interessante. Eles não precisam da aprovação de nenhum amigo ou familiar. Precisam, sim, é escrever.

Orkut: “Deixar de participar”

•08/10/2009 • 2 Comentários

Caros 476 amigos,

Escrevo para comunicá-los da minha triste, porém muito bem pensada decisão de abandonar o orkut. Não estava mais dando certo olhar para o meu perfil e constatar que sou considerado apenas um coraçãozinho em três, em se tratando de gostosura. Eu sei que não sou a maior boniteza que existe, mas tenho cartaz e reputação por que zelar.

Se houvesse avaliação para insegurança, aí, ganharia nota completa! Por exemplo, o dia do meu aniversário, 17 de março: não fosse pelo lembrete na sua página inicial, você lembraria do meu níver? Tenho certeza de que não… E o pior foi todos vocês saberem e, dos 476, só receber 109 scraps de parabéns!… Aproveitem e anotem na agenda, para não esquecerem.

O orkut veio para aproximar as pessoas, melhorar os relacionamentos, mas as coisas só estão piorando. Muitas pessoas que antes telefonavam pra me parabenizar agora só deixam um recadinho sem graça, não contam da vida, nem fazem  fofoca. Há muitos de quem não escuto a voz faz três ou quatro anos. Resolvi, por isso, acordar. E, pensando bem, nenhum de vocês é meu amigo de verdade. Curioso, mas meu único amigo, amigão mesmo, nem tem orkut! E a gente se fala sempre, mesmo morando em cidades diferentes.

Vão me desculpar, mas a verdade tem de ser dita: Perdeu a graça, depois da decisão de instituírem as ferramentas de privacidade. Meu maior tesão era bisbilhotar os profiles e scraps e fotos das minhas ex-namoradas! Era muito bom. Já cheguei a entrar no scrapbook da amiga de uma  ex, pra ver o recado que ela tinha deixado: tinham combinado de sair, num barzinho X. Com dia e hora marcada, tudo de graça, ali escritinho! Não tive dúvida: apareci no bar por acaso e infernizei a balada da coitada. Vai me  dizer que você nunca fez isso?! Era a minha diversão.

E as fotos com os namorados atuais? Ai, como doía a alma ver aquilo, mas me fazia desencanar e partir  pra outra.  O péssimo era procurar por pessoas do tempo do ginásio e deparar-me com fotos de gente que triplicou de peso, ficou careca ou teve três filhos: coisa horrorooooooosa… Curiosidade mata. Mas como é que eu não morri? De ruindade? Só pode. Desculpem por tomar a sua página inteira de scraps para escrever este texto. Mas foi a última vez, nunca mais irão me add, prometo.

Façamos o seguinte: quem quiser falar comigo, só me telefonar – vamos tomar um chope, vamos falar mal dos outros e dar risada em voz alta. Quê? Não tem meu telefone? Vai tomar no cu, então! Não sou mais seu amigo, nunca fui mesmo…

Olho por olho

•01/10/2009 • 1 Comentário

Estava já há duas horas operando, quando se deu conta: por baixo daquele pano limpo, estéril, que deixava exposto para trabalho apenas um olho esquerdo, ainda semifurado, havia um indivíduo. “Um baita dum filho da puta”, pensou. Lembrou-se do juramento de Hipócrates, e sabia bem que, em primeiro lugar, não deveria fazer mal. Sentiu raiva de ter-se lembrado.

Passou duas horas limpando os estilhaços e suturando a córnea, um corte bem no centro, generoso. Resolveu parar. Colocou os instrumentos na mesa. Estacou, observando aquele olho que nunca mais enxergaria perfeitamente, mas que, graças à sua dextreza de cirurgião, ficaria razoavelmente perto do bom. A vontade era de remover os pontos, pedir à instrumentadora a seringa com a agulha mais comprida e calibrosa, para então penetrar a córnea e varar o órgão, até atingir a retina, ou melhor, mirar o nervo óptico.

Estuprador merece misericórdia de médico? A chance de fazer justiça apresentava-se tão forte, reluzente, bonita… Já presenciara tantas vezes os óbitos de bandidos, trazidos ao hospital de camburão por policiais, mas que não chegaram do local do crime ao pronto-socorro em tempo hábil para assistência. Sentiu-se bem menos poderoso, menos decisivo que os policiais, por não poder fazer picadinho daquele olho.

Aquele olho havia tentado abusar da própria filha, e teria conseguido, não fosse a mãe chegar mais cedo do trabalho e tascar na cabeça do próprio marido uma garrafa vazia da cerveja ingerida por ele minutos antes .

Retomou o porta-agulhas, o fio de nylon, a pinça de ponto, continuando o serviço, com extrema facilidade, por conta de sua apurada técnica. Para aquilo, não precisava muito pensar. Era um médico, não um ser humano, ainda bem.

Crateras da Lua

•24/09/2009 • 2 Comentários

Dirigindo à noite na estrada escura, olhou bem para a lua, aquela lua minguante, com um filetinho só de brilho, mas que tanto refletia a luz do sol, que fazia visível a maior porção, de penumbra. Lembrou-se das fotos em que aparecem as crateras, enormes, e pensou que até a lua, olhando bem de perto, tem defeito. Enquanto esperava pela chegada da chuva, pensava em sua garota e no que sua vida tinha se tornado a partir do momento em que decidiram morar juntos.

O mais foda, sem dúvida, tinha sido conviver com as manias dela. Sabia também que ela teria de aturar as dele, mas acreditava que as dele nem fossem tão ruins. O pior dos problemas de morar juntos é que as mulheres são muito mandonas, entretanto, foi depois de agregarem os devidos trapos que ela sossegou um pouco. Percebeu que ficar com o namorado/amásio/marido era mais que permanecer em estado de grude, olhando para os seus olhos, sem desviar. Tinha mais. Tinha muito mais: tinha um jeito bom de extrapolar o “ficar junto”.

Era ela esparramada no tapete da sala, lendo a Ilustrada, e ele no notebook, checando e-mail. Ele na cozinha, preparando suco de laranja, e ela assistindo à televisão, programa de mulher. Ele torcendo pro Corinthians, e ela na missa, no supermercado, na puta-que-o-pariu, se assim desejasse. Ela dormindo à tarde, ele correndo no parque.

A diferença era ele dando um beijo na perna dela, vez ou outra, enquanto ela lia o jornal, ou o cafuné na cabeça dele enquanto ia a caminho do banheiro, no intervalo do jogo do Timão, ou ele oferecendo um gole do suco, fazendo-a desviar um pouco que fosse os olhos da TV. Ou, ainda, o beijo suado de quem voltou do parque correndo ainda mais rápido, simplesmente para despertar a bela adormecida.

Estava feliz. Mais ainda por ter chegado a casa sem chuva na estrada, tendo podido admirar a lua com todas as suas crateras.

Pau na mula!

•06/08/2009 • 2 Comentários

Mudando de setor, viu-se obrigado a conviver com uma pessoa chata. Não só chata: implicante, cínica, mau humorada e prepotente. Quis abandonar o barco, quando descobriu que seria subordinado a ela, mas sabia que não poderia, que aquilo seria sua prova de fogo, a pior dos últimos três anos.

No primeiro dia, fez de tudo para ser agradável: puxou assunto, mostrou interesse, foi solícito, esteve presente e a postos. Esperou consideração e atenção recíprocas, que não aconteceram, aliás, retribuíram-se com pressa e críticas, com impaciência. Ficou cabreiro, ficou quieto.

No segundo dia, tentou mostrar serviço: preparara-se para aquela função, fez uma boa sugestão e demonstrou conhecimento ao tentar impedir um erro que se traduziria em grave perda para a empresa. Esperou reconhecimento, que não aconteceu. Ao invés, orgulho e antipatia.

No terceiro dia, como nos dois primeiros, compareceu cedo ao trabalho, preparou tudo conforme o recomendado, agilizou o serviço o máximo que pôde, apegou-se ao conceito de “Pau na mula!”, apreendido certa vez, ao escutar uma velhota apressada. Quando chegou a chefia, cumprimentando a todos com um bom-dia genérico, respondeu com um olhar rápido, erguendo as sobrancelhas, o que sempre se acompanha de uma testa bem franzida, e redirecionou suas forças àquilo em que se ocupava. Passou a manhã toda ao lado da (quase) insuportável e mal comida pessoa, dirigindo-lhe a palavra exclusivamente quando o assunto fosse profissional. Não lhe perguntou como estava, nem se sua mãe fizera boa viagem, pois percebeu que, se não estava realmente interessado se a velha havia ou não se esbagaçado na estrada, não tinha por quê. Quando criticado, aceitou calado, sem questionar, pois percebeu que havia ali um campo de força à prova de argumentos.

Surpreendentemente, à tarde, recebeu orientações construtivas; teve suas indagações atendidas satisfatoriamente e para completar, um “bye bye” praticamente simpático, bem de longe, ao final do dia. Agradeceu por ter saído ileso; descobrira uma razoável maneira de passar o próximo mês e meio sem mandar o chefe ir tomar no cu.

Cagou na calça

•30/07/2009 • 2 Comentários

Um belo dia, do alto dos seus vinte e sete anos, borrou suas vestes ao forçar um pum. Cagou na calça, sendo claro. Não poderia ele imaginar que ainda teria idade para aquilo. Justo ele, que já não se mijava desde os, sei lá, seis anos, e que já não se cagava desde os treze, naquela memorável ocasião em que melou a zorba ao chutar a bola, em plena aula de educação física.

O único pensamento povoando era o de se começaria ou não a feder ali, no ambiente de trabalho. Por azar, acabara de chegar para o expediente. Desejou não estar empregado em trabalho de ter contato com o público, exceto se se tratasse de público anósmico, como os frequentadores de necrotérios, ou se labutasse em loja de incenso indiano. Desejou não estar empregado. Ou estar, e, motivado por tamanho deslize, procurar o médico que lhe declarasse enfim inválido, de modo que o pum ao molho lhe valesse digna aposentadoria.

Quando a funcionária mais bonita e cobiçada da empresa se aproximou e perguntou se também teria sentido um cheiro estranho, respondeu que “Sim, desagradável! Ouvi dizer que a tubulação do prédio nunca foi trocada, nesses vinte anos! Um verdadeiro absurdo…”. Conhecia-se bem, sabia do seu baixo poder de convencimento, imaginou que os quase oito meses de boa impressão causada iam por água abaixo, afastando de vez a remota chance de levar a Ildete pra casa. “É cheiro de bosta, realmente! E parece que tá tão perto…”, mas nunca desconfiaria dele, que ninguém mais se caga com quase trinta anos.

Assim que a boa funcionária se afastou, tratou de procurar o banheiro mais próximo, para conferir o estrago. Porque todo mundo adora olhar pro merdalhão, desde que não seja o alheio. Até o cheiro aguenta bem, e, mais que isso, aprecia, sente-o adocicado. Vê e cheira, de inspirar profundo, mas é ignorado o porquê de jamais cogitar ingeri-lo. Triste é ver a cueca arruinada, deixando a dúvida sobre se mais vale atirá-la ao cesto de lixo ou enrolar com papel higiênico a região afetada, sem despir-se da peça, isolando o odor e também salvaguardando de assaduras a íntima área.

Abraçou a segunda opção, com o grátis desconforto de ter algo mais entre as pernas, roçando o ânus, mas expressando gratidão por esse algo mais ser apenas papel higiênico. Voltou renovado ao trabalho, rindo-se de mais uma comprovação de seu talento e de sua habilidade para pequenas situações do cotidiano, como acontece com todas as pessoas normais.